Pato Fu lança o novo álbum Música de brinquedo
09.08.2010 • 14:56

Para o aniversário de 4 anos de Nina, John Ulhoa foi até uma loja de brinquedos escolher o presente da filha. Logo foi levado à seção cor-de-rosa, repleta de modelos de Barbie, Polly, Moranguinho e afins. Nem perdeu tempo procurando um exemplar em meio à diversidade de opções. De cara, viu um pianinho empoeirado no alto de uma prateleira. Pediu que descessem a peça única. Se encantou com o instrumento e começou a tocá-lo, mesmo com o olhar reprovador de “esse cara vai dar mesmo isso pra filha?”.

Quase três anos depois, o tal pianinho ainda chama a atenção de Nina, prestes a completar o sétimo aniversário. Mas não somente dela. Papai John fez daquele modelo o primeiro de uma coleção improvável de instrumentos. São tantos adquiridos nos últimos tempos que ele perdeu a conta. E ao ouvir a coleção de 12 canções de Música de brinquedo, novo álbum do Pato Fu, não há como negar: o guitarrista, compositor e produtor estava certíssimo ao ir totalmente contra as sugestões de presentes dos vendedores de lojas infantis.

O Pato Fu fez uma coisa que só  poderia vir do Pato Fu. Gravou um disco inteiramente com instrumentos de brinquedo. O repertório conta somente com versões de músicas que povoam o universo da canção pop brasileira. “A seleção representa bem a mistura do próprio Pato Fu, pois mostra o que a gente ouve de todos os lados, que é possível conviver tanto com Zé Ramalho quanto com Paul McCartney”, afirma Fernanda Takai, acrescentando que a escolha das músicas foi bastante emocional.

É um disco de músicas adultas executadas com instrumentos para crianças, o que permite duas leituras. Todas as canções foram gravadas com os arranjos originais. Uma audição mais acurada chama a atenção para o que bons instrumentistas podem fazer com instrumentos limitados. Já os fãs do lado fofo do Pato Fu vão se emocionar com a cereja do bolo: a participação das crianças, que dividem os vocais com Fernanda Takai. Além da filhota, Nina Takai, a vocalista canta ao lado de Matheus D’Alessandro (amigo desde o berço da menina e com 6 anos como ela) em todas as faixas. Outras participações afetivas foram Mariana Devin (coro), João Lucas e André Ulhoa (flauta).

 

COLORIDO NOVO

Ouvir Nina gritando a plenos pulmões o refrão de Live and let die garante uma nova cor à conhecidíssima canção de McCartney. O curioso do repertório é exatamente este: todas as faixas são muito populares e a forma com que o Pato Fu gravou cada uma tira logo a banalidade com que canções como Primavera (vai chuva) (Cassiano/Silvio Rochael), Sonífera ilha (Branco Mello/Marcelo Fromer/Toni Bellotto/Ciro Pessoa/Carlos Barmak) e Ovelha negra (Rita Lee) ganharam com exaustivas execuções em rádio, shows, apresentações de barzinho e rodas de violão das últimas décadas.

“Se pegássemos músicas novas, não haveria o mesmo apelo emocional. A sonoridade de brinquedo faz sentido em todas as que escolhemos, que são canções que todo o mundo conhece e, na maioria das vezes, têm refrão grudento”, diz Fernanda Takai. Dessa maneira, Twiggy Twiggy, hit na gravação do grupo japonês Pizzicato Five que ela inclusive interpretou no original há alguns anos no Palácio das Artes, divide espaço no repertório com Frevo mulher, de autoria de Zé Ramalho, que até hoje é sensação com Amelinha.

“Queríamos que a participação das crianças fosse de uma forma muito simples: um grito, uma frase. Quando elas entraram no estúdio (128 Japs, na casa de John e Fernanda na Pampulha), não sabíamos como iriam soar. Para que não ficasse um disco de crianças, as participações foram bem econômicas”, lembra ela. As duas crianças no estúdio não consumiram tanto trabalho quanto possa parecer. Foram três horas de gravação.

 

VIRTUOSISMO E MALUQUICE

A parte musical propriamente dita é que foi bem mais trabalhosa. Obsessivo pesquisador de sons, barulhinhos e toda a sorte de efeitos, John não usou nada de sampler nas gravações. “Se você ouve um teclado, é aquele do Backyardigans, e esse som que é legal. O que dá cara ao negócio é mostrar os instrumentos de brincadeira orgânicos” conta ele. É difícil imaginar, por exemplo, o baterista Xande Tamietti, que se transforma num monstro em shows, gravando com uma caixinha de fósforos em Love me tender (Elvis Presley/Vera Matson).

O mais complicado, de acordo com John, foi gravar as canções mais simples. “Se você colocar o nosso Live and let die e o original para tocarem juntos, vai ver que o solo é igualzinho. Esses arranjos malucos são mais fáceis de resolver. Agora, Ovelha negra, que tem arranjo emblemático de baixo, guitarra, bateria e piano, ficou mais difícil. Ou seja, para executar essa música num piano de brinquedo é preciso certa proficiência”, completa, logo acrescentando que todos os integrantes da banda (o quinteto se completa com o baixista Ricardo Koctus e o tecladista Lulu Camargo) se divertiram com a gravação. “Acho que todos os músicos gostam de sair de seu hábitat. O Xande foi o que mais se divertiu e ele tem tanta técnica que conseguiu, com facilidade, tirar um som decente de uma bateria infantil, tão pequena e limitada. A dificuldade maior foi não destruí-la.”

 

O que dirá então da empreitada que começa agora. O Pato Fu vai levar Música de brinquedo para os palcos tal qual foi gravado. Depois de dois ensaios fechados no Teatro Dom Silvério, a turnê da banda, que estava de molho nos últimos anos por conta da carreira solo de Fernanda Takai (que, pelo menos por ora, dá um tempo dos palcos), estreia sábado no Teatro da Caixa, no Rio de Janeiro. BH deve assistir ao show no início de setembro.

“No estúdio, você grava um take e dá uma arrumada no instrumento. Agora, no palco, existe a dificuldade técnica para o pessoal que faz o som, pois esses instrumentos são baixos. Ao tocar ao vivo, há sempre o risco de que com todos juntos o som fique confuso. Mas nos ensaios fomos mostrando as soluções para cada instrumento e o som ficou muito bom, bem bizarro”, conta John, que no site da banda (www.patofu.com.br) apresenta um making of de 18 minutos sobre todo o processo de gravação.

Em cena, eles não têm a menor ideia de quantos instrumentos serão, tal a variedade deles. Além de todo o repertório do disco, haverá hits do Pato Fu (Sobre o tempo é um deles). Além dos cinco, vão integrar a banda Mariah Portugal e Tiago Braga, músicos que acompanham Fernanda em sua carreira solo. Somente Nina e Matheus não estarão presentes, por razões óbvias. “A parte que eles gravaram será feita ao vivo por nós de outra forma. Essa vai ser a grande surpresa”, finaliza Fernanda.

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