
Dupla Personalidade
Por Tiago Agostini
Levando ao limite a filosofia da vida ordinária, Fernanda Takai e John Ulhoa se apoiam na rotina discreta de pais de família dedicados e brincam de roqueiros transgressores nas horas vagas.
Não." Com uma única e sonora palavra, Fernanda Takai interrompe bruscamente minha pergunta sobre se cogita um dia deixar Belo Horizonte. "Só se acontecer uma hecatombe e eu não aguentar mais eu vou pra uma cidade menor." É a hora do almoço, e a vocalista do Pato Fu está sentada à mesa diante de mim e ao lado do marido, o guitarrista John Ulhoa. O local em questão, o restaurante Xapuri, na região da Pampulha - que serve a "melhor comida mineira do universo", nas palavras dele - fica localizado a menos de 500 metros da casa onde o casal vive. A dona do restaurante se aproxima da mesa e cumprimenta os clientes ilustres. A neta da cozinheira é amiga de Nina, a filha de 6 anos de Fernanda e John. Ao ouvir dela elogios por sua boa forma, a cantora sorri e faz gracejos. Sorriso no rosto, fala mansa, postura relaxada, o casal Pato Fu se comporta em público como se estivesse almoçando na sala de jantar de casa.
"A gente tem um perfil muito reservado", analisa Fernanda, sem demonstrar remorso por nunca ter saído da capital mineira ao longo dos 18 anos de existência da banda. "Se fosse para o Rio ou para São Paulo, eu me exporia muito mais, com certeza." De fato, ela e John parecem fazer questão absoluta de encarnar o perfil anti-rock stars no limite: acordam cedo, fazem a lição de casa com a filha, trabalham em horário "normal", levam uma rotina sem excessos. Cúmplices profissionais e casados desde 1995 - mas "dando beijo na boca", como diz Fernanda, desde 1993 -, os dois admitem raramente sair de casa, a não ser por compromissos relacionados à música. "É bom comprar carro do John, porque depois de cinco, seis anos, ainda tem só 40 mil km rodados", brinca Xande Tamietti, baterista do Pato Fu. "A gente tá velhinho", Fernanda se desculpa. "Não vai ao cinema porque às vezes dorme no meio do filme, então aluga muito DVD pra assistir em casa."
O estilo exageradamente simples, quase recluso, chega a espantar quem entra em contato com o casal no dia a dia. Fernanda relembra sobre as várias vezes em que foi abordada por fãs no supermercado, espantados com a presença de uma artista de renome realizando uma atividade tão corriqueira. "Eu gosto de escolher eu mesma os ingredientes que vou ter em casa, não me furto de fazer isso", ela diz, sem parecer forçado. Em seguida, sem cerimônia, ela solicita ao garçom que embrulhe os pedaços de frango que sobraram do almoço. "Dá uma boa canja, né?"
Fernanda e John moram há 11 anos na região da Pampulha, próxima do quilômetro nove da lagoa, do lado oposto ao Mineirão e da área mais movimentada de Belo Horizonte. Ampla e simples, a casa possui dois pisos e uma espécie de porão onde ficam guardados os instrumentos do Pato Fu. Na sala de estar, uma coleção de pratos decorativos de Fernanda fica exposta na parede. Pelo gramado dos fundos correm os cachorros, Tata e Branquinha. Passando a piscina se encontra o estúdio caseiro - batizado 128 Japs -, onde John dá expediente diariamente das 9h às 19h, seja produzindo outras bandas, seja gravando músicas para o Pato Fu, seja apenas experimentando novos brinquedinhos tecnológicos.
Inseparáveis, os dois se conheceram em 1991. Ele tinha uma loja de instrumentos musicais em Belo Horizonte, em sociedade com o irmão. Ela costumava comprar encordoamento e palhetas no local. Quando escutou uma fita demo com músicas cantadas por Fernanda, John se apaixonou no ato e a convidou para entrar no Sustados por 1 Gesto, banda que acabou dando origem ao Pato Fu. "Ela tem um dos maiores tesouros da música pop, que é uma voz reconhecível em poucas notas", o marido se derrete. Nos primeiros anos, a parceria entre ambos se limitava ao âmbito musical. Fernanda então decidiu viajar aos Estados Unidos para participar de um intercâmbio. No mesmo período, John se casou com sua então namorada na época. Quando Fernanda retornou dos Estados Unidos, a banda retomou as atividades, já com o nome pelo qual é famosa hoje. Apenas um ano após ter começado, o casamento de John terminou. O namoro com Fernanda teria engatado meses mais tarde, na festa de aniversário de um amigo - John titubeia, mas já não se lembra a data exata.
"Na verdade" - sério, John relembra o começo da relação com Fernanda - "eu comecei a namorar com ela depois que me separei. Mas eu me separei por causa dela". Ele faz uma pausa, estirado no sofá do estúdio, olhando para o teto distraído como quem mira o horizonte. "Foi bonito." A história de amor de Fernanda e John se mistura com a da origem do Pato Fu de uma forma intensa, de modo que toda vez que falam sobre o relacionamento ambos contextualizam o momento pelo qual a banda atravessava à época. Ou talvez, conforme noto, esse seja apenas um artifício dos dois para evitar o aprofundamento no tema "vida pessoal".
Você lê esta matéria na íntegra na edição 46, julho/2010















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