Uma pausa na correria
Há muito mais por trás do FarmVille do que montar uma fazendinha e se divertir decidindo onde colocar seu estábulo ou se planta morangos ou berinjelas
PRISCILA BRITO
ESPECIAL PARA O PAMPULHA
"Eu queria ter na vida simplesmente um lugar de mato verde pra plantar e pra colher..." O desejo registrado em "Casinha Branca", sucesso de 1975 do compositor Gilson, parece ter tomado conta do mundo... virtual. Diariamente, milhões de pessoas que, como você, enfrentam estresse no trabalho, engarrafamentos no trânsito e conflitos financeiros, separam alguns minutos do dia para arar a terra, colher trigo e ordenhar vacas com simples cliques no mouse. Todas elas realizam essas tarefas necessárias a quem administra uma fazenda graças ao FarmVille, jogo disponibilizado pela rede social Facebook que permite ao jogador simular o dia a dia de um fazendeiro e virou febre na internet.
Os números são astronômicos. Em apenas oito meses, o jogo converteu 83 milhões de internautas de todo o mundo em fazendeiros. O mais curioso é que, desses, 1 milhão gasta dinheiro real no jogo todos os meses para ampliar suas posses. E a brincadeira seduz de crianças a profissionais liberais e idosos. O produtor musical Aluizer Malab, 45, é um deles. Ele, que confessa nunca ter sido muito assíduo com jogos eletrônicos, se rendeu aos encantos da fazenda de grama verde bandeira. "É gostoso você planejar o espaço, organizar as coisas entre plantio, edificações".
Mas há muito mais por trás dessa brincadeira quase infantil de montar uma fazendinha do que simplesmente se divertir decidindo em que canto fica o estábulo ou onde serão plantadas as sementes de berinjela.
O grande segredo do FarmVille, responsável por torná-lo tão popular, é o aspecto colaborativo embutido em seu funcionamento, segundo o pesquisador em tecnologias digitais e sociedade da Universidade Federal da Bahia, Thiago Falcão. "Se você não jogar com as outras pessoas, você evolui de uma maneira mais lenta e chega até a não evoluir". Em razão dessa característica, ele completa, cada jogador precisa estimular outras pessoas a aderirem ao jogo. "Um membro vai puxando outro, que vai puxando outro. É exponencial". Os gráficos bem feitos e a facilidade para executar as ações do jogo completam a lista de ingredientes de sucesso, de acordo com o pesquisador.
A colaboração no jogo, que inclui trocar presentes, espantar os urubus que ameaçam a plantação de um amigo ou fertilizar a terra de um outro companheiro para ganhar experiência e dinheiro para expandir a fazenda, também é o que mantém as pessoas na brincadeira.
Num jogo em que não há competição nem vencedores, interagir com os amigos através dessas pequenas caridades é uma forte motivação, segundo o professor do Departamento de Sociologia e Antropologia da UFMG, Francisco Santos. "Mesmo que essa interação não seja material, que não tenha o brilho dos olhos para te indicar alguma coisa, mesmo que seja só virtual, ela é muito sedutora. Somos tentados demais pela interação com os outros".
A tentação é tão grande que, pegando carona no sucesso de FarmVille, já há genéricos na rede social Orkut, como o Colheita Feliz e o Minha Fazenda, que juntos somam quase 26 milhões de "fazendeiros".
É só um jogo?
Investir tempo para transformar uma pequena lavoura de morangos em uma grande propriedade com pomares, animais e belos jardins também pode sinalizar um esforço de realização pessoal e respeito que todos almejam, sugere a psicóloga e professora da PUC-Minas, Nádia Laguardia.
"Às vezes, você não tem uma posição de destaque nem reconhecimento na vida e pode experimentar no mundo virtual ser respeitado por gerenciar algo que vai muito bem. Se na realidade isso não é fácil, no virtual é".
A psicóloga ressalta, porém, que não se deve esquecer que todo jogo, em última análise, tem uma dimensão lúdica. "O jogar é uma atividade muito rica. É uma válvula de escape para a fantasia", defende. FarmVille, nesse sentido, é só mais uma opção de diversão.
Em meio a cálculos para saber qual vegetal tem melhor custo-benefício para sua fazenda, o produtor Aluizer Malab entrega qual é o sentido maior desse faz de conta rural. "É como uma pausa para o café. Às vezes estou de cabeça cheia e colho um pouquinho de alcachofra. Dá quase a sensação do esforço de fazer a colheita. Desestressa, dá prazer". (PB)
Fonte: http://www.otempo.com.br/jornalpampulha/noticias/?IdEdicao=184&IdNoticia=5565















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