Raras casas de espetáculo conseguem se manter apenas com a bilheteria
Mariana Peixoto - EM Cultura
Se em um mês os proprietários do Music Hall não conseguirem patrocínio, a casa de shows em Santa Efigênia, fechada desde janeiro por dificuldades financeiras, cerrará as portas definitivamente. “Com o fechamento, Belo Horizonte ficará sem alternativas para shows que são pequenos para o Chevrolet Hall e que não tenham o perfil do Palácio das Artes”, afirma Lúcio Oliveira, da ArtBHz, que responde pelo empreendimento em parceria com a DM Promoções.
O fim do Music Hall, depois de três anos de funcionamento, levanta a velha problemática da carência de espaço para shows na capital. Mas o argumento para o fechamento – a ausência de patrocinadores – faz com que a questão seja analisada de mais de uma maneira. A indústria do entretenimento precisa de patrocínio, não vive apenas de bilheteria. E isso afeta não somente o dono da casa noturna, mas toda a cadeia que envolve o setor.
O primeiro exemplo vem do Chevrolet Hall. Independentemente de ser um ginásio que também comporta shows musicais, é hoje a única alternativa na cidade para eventos com público de até 5,5 mil pessoas. Nos últimos anos, tornou-se o principal palco para artistas do primeiro time: dos sertanejos Zezé di Camargo e Luciano a bandas pops como Skank, passando por atrações internacionais como Pet Shop Boys. Inaugurado em junho de 2003 pelos irmãos Maristas, um ano e meio mais tarde foi assinado contrato de patrocínio com a General Motors, renovado por cinco anos no fim de 2009. A casa também tem apoio da Coca-Cola (que responde pela bandeira das bebidas lá vendidas), Banco Real (exposição de marca) e Embratel (apresenta um show mensal no espaço).
“Toda casa precisa da receita de patrocínio, pois o custo de manutenção é alto e apenas show não paga o mix da receita”, afirma Wanderléia Magalhães, diretora do Chevrolet Hall. Os quatro patrocínios (o da GM corresponde a 50% do valor) cobrem um terço do total. O restante vem da bilheteria e de eventos fechados. Ela lembra que, fora de BH, as maiores casas também levam o nome do patrocinador, caso do Credicard Hall, em São Paulo, e do Citibank Hall, no Rio de Janeiro e na capital paulista.
Proprietária da Nó de Rosa, produtora que vem realizando, nos dois últimos anos, os principais shows internacionais na cidade, Márcia Ribeiro conta exclusivamente com a renda de bilheteria para a realização dos eventos. “Não há planejamento de médio e longo prazos para o showbusiness. Normalmente, conseguimos antecedência máxima de quatro, cinco meses para fechar um show. Esse é o mesmo prazo que as grandes marcas têm para estudar se há interesse em patrocinar um produto.” De todos os shows realizados pela produtora – Alanis Morissette, Iron Maiden, Cranberries e Keane, entre outros –, Márcia informa que um ou dois foram patrocinados.
“Não tenho resposta para isso”, afirma ela, quando questionada sobre a dificuldade de conseguir patrocínio. “Até acho estranho, pois o que você mais escuta de qualquer profissional de marketing é que o grande desafio da mídia é conseguir ação que esteja próxima do cliente. E não existe produto melhor para uma marca do que o entretenimento, pois é quando se pega o cliente num momento de descontração”, acrescenta Márcia.
Trabalhando “com a cara, a coragem e uma vela acesa” – para conseguir fechar as contas de um show internacional ela diz precisar de 70% a 80% de lotação –, nos próximos meses Márcia trará ao Chevrolet Hall A-ha (14 de março), Placebo (16 de abril), Simply Red (21 de abril) e Roger Hodgson (ex-vocalista do Supertramp, em 15 de maio). Empreitada mais ambiciosa, o espetáculo do Guns’n’Roses, em 10 de março, no Mineirinho, precisa de pelo menos 15 mil pagantes (até agora foram vendidos oito mil ingressos) para ser bem-sucedido.
Outro produtor com histórico de atrações internacionais, Aluizer Malab, da Malab Produções, confirma que a prática corrente é realizar eventos caros sem patrocínio. O contrário é exceção. “Para ganhar, você tem de fazer muita conta. Shows no Chevrolet necessitam de pelo menos 4,5 mil pagantes para que a conta feche. No fim, na hora de trazer alguém, você tem de analisar muito para ver se o público quer realmente ver aquele artista”, diz ele.
De volta à problemática das casas de shows, Malab comenta que a cidade continua sem opção definitiva. “O que falta não é espaço alternativo ou adaptado. A gente precisa é de uma casa projetada para aquele fim. E não há nenhum projeto bacana que sobreviva só de bilheteria. Todas as grandes do Brasil têm uma bandeira. O fechamento do Music Hall é uma perda, pois o local é generoso, com mezanino. Por outro lado, ele precisa de mais investimentos para ser concluído como casa de shows. Quase não existe camarim, o artista tem de entrar pela porta da frente, não há estacionamento pensado para a própria casa. O que a turma do Music Hall fez foi empreender tudo do próprio bolso. Dessa forma, só conseguiram chegar até um patamar”, analisa Malab.
Ou seja: para mais, é preciso investimento extra. Nos três anos em que funcionou, o Music Hall teve por pouco mais de um ano o patrocínio das balas Freegells (no período, a marca passou a assinar o nome da casa). “O valor que recebíamos dava praticamente para o custo operacional. Foi um período bom, mas, quando veio a famosa crise no fim de 2008, a empresa retirou o patrocínio”, explica Lúcio Oliveira.
Um dos produtores de eventos mais experientes da capital, com mais de 20 anos de carreira, ele lembra que, hoje em dia, é impossível repetir o que fez no passado. “Promovíamos turnês por 15, 20 cidades do interior de Minas com artistas como Lulu Santos e Alceu Valença. Tudo sem um centavo de patrocínio. Como a bilheteria pagava tudo, o negócio era autossuficiente. Hoje, a meia-entrada desvirtuou a política de preços e você nunca sabe quantos ingressos vai vender de inteira e de meia. Vários fatores dificultam o meio, e isso faz com que o patrocínio seja obrigatório para a manutenção de qualquer casa”, conclui Lúcio Oliveira.
MUDANÇA DE ROTA
Correndo por fora, o Lapa Multshow completa 13 anos em março. Casa de shows com capacidade para 1,5 mil pessoas, nunca teve patrocinador. É espaço mais alternativo, que não comporta grandes produções e vem se mantendo com a renda de bilheteria e do bar. O Lapa já recebeu Zeca Baleiro, Lenine, Los Hermanos e Seu Jorge. Entretanto, a partir do momento em que esses artistas atingiram outro patamar, tiveram de mudar de palco. O DVD mais recente de Baleiro, por exemplo, foi gravado em 2009, no Music Hall.
Ao constatar que teria de se adaptar aos novos tempos, Guilardo Veloso, proprietário do Lapa, mudou de linha. Há pelo menos quatro anos ele realiza as próprias produções sob perspectiva mais modesta. Consegue lotar o Lapa com shows de samba e forró. “Hoje, 95% da minha programação é com bandas locais”, conta.
Casa cheia, ele consegue manter com ingressos baratos. Nesse tipo de evento, o valor gira entre R$ 10 e R$ 15. “O problema não é ter ou não patrocinador. É gerenciar. Em BH, o público tem poder aquisitivo médio, não é como Rio e São Paulo. Para o porte do Lapa, não posso cobrar caro. Cada um tem de trabalhar dentro de sua realidade”, conclui Veloso.















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